Quarta-feira, 26 de Março de 2008

«Bye bye, Blackbird»...

Foto: Pedro Bastos


Perdoa-me por tornar este texto demasiado pessoal, mas não consigo fazê-lo de outra forma. Foi com a tua voz, em redor da tua voz, que nos juntámos. Lembro-me de te estar a ouvir, uma vez, escondido. E de imaginar não um rosto, não a ti, mas um sopro. Forte, divino até. Deste voz, dás voz às minhas palavras, em que entrancei muitas emoções. Sorrimos muito. Temos o nosso som, o teu som. Deste-nos o teu sopro. Dás-nos o teu sopro. Perdoa-me, mas continuas aqui. Eu não te vou deixar ir. Não depois de teres dado voz a «Mim», não depois de teres dado voz à minha «Pequena História para a Maria», que só para ti tive coragem de retirar da gaveta. Vou ver sempre o teu sorriso a acompanhar a música. Vou ter-te sempre na plateia da «minha» 9.ª Sinfonia de Beethoven, com a Isabel. Vou ouvir-te sempre que abra os braços para a música. Tu és os D'Arc, e quero que cantes connosco um novo tema. Chama-se «Bye bye, Blackbird». Deixo-te a letra, para ires estudando. Até já...

Bye Bye, Blackbird (Henderson-Dixson)

Pack up all my care and woe
Here I go, singing low
Bye bye, blackbird.
Where somebody waits for me
Sugar's sweet, so is sheBye bye, blackbird.

No one here can love or understand me
Oh, what hard luck stories they all hand me
Make my bed and light the light, I'll arrive late tonight
Blackbird, bye bye.

Bye bye blackbird
Bye bye blackbird...

Goodbye, blackbird
I'm gonna miss you
I'm gonna miss you, Blackbird
You hear that?

I'm gonna follow you soon
Wherever you go, I'll follow you.
There's someone waiting out there for me, where you're leading
I can see you flappin' your wings now
You're calling meI hear you calling me,
I hear you! I hear you! I'm coming! I'm coming!
I'm almost there
She's there waiting for me
Oh, how wonderful she looks!
Oh, how marvelous, blackbird
Here! Here! Flap your wings, flap 'em! Flap 'em! Whistle to me!

Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Diz-me que não foi um erro...


Diz-me que não foi um erro. Diz-me que não foi um erro ter-te visto. Diz-me que não foi um erro ter-me deixado invadir pelo teu perfume, pelo teu sal, pelo iodo do teu respirar. Diz-me que não foi um erro ter bebido os teus lábios numa manhã de sol. Diz-me que não foi um erro ter-te olhado em silêncio, ter sentido a tua mão calmamente a afagar-me o rosto. Diz-me que não foi um erro ter-te visto inteira naquela noite. Diz-me que não foi um erro ter-te abraçado com toda a força que tinha. Diz-me que não foi um erro deixar-me inundar por um mar que não era meu, que não foi um erro passar a navegar tendo-te por mapa e estrela guia. Diz-me que não foi um erro voltar a ser marinheiro, voltar a navegar. Diz-me que não foi um erro deixar-te entrar a bordo. Diz-me que não foi um erro eu querer dar-me a ti por inteiro, que não foi um erro sentir e dizer-te que nunca bebi outro beijo senão o teu. Diz-me que não foi um erro eu não desistir de te ter no horizonte, que não foi um erro ousar sorrir para ti e por ti. Diz-me que não foi um erro eu ser eu, que não foi um erro eu querer ter sido marinheiro. Diz-me que não foi um erro ver em ti o mapa de todas as rotas, a bússola de todas as viagens, o barco de todas as horas, o sal de todos os mares, a água de todos os beijos, a ilha de todos os amores, a vela de todos os ventos. Diz-me que não foi um erro ter voltado a partir com destino a ti, sempre com destino a ti, porque eu sinto que não é um erro. Falta apenas que o digas. Deixa-me voltar a ouvir a tua voz com cada parte de mim. Diz-me que não foi um erro.

Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Diário de Bordo…


Regressam-me à memória, num turbilhão, todas as imagens, vistas agora deste céu. De uma cidade de árvores recortadas por casas. Da trovoada que vi, espantado, a cada segundo tornar-se mais forte e mais poderosa. Ao sair do autocarro, com a dificuldade de um carrinho de bebé, uma jovem mulher encontra a irmã, e o rosto de esforço transfigura-se em felicidade. Numa sucata, ao fim da rua, um grupo de homens de leste com aspecto mafioso cumprimentam-se com dois beijos e negoceiam um carro com aspecto de roubado. Duas crianças turcas brincam sob o olhar azul atento da mãe, no metro. Um pedinte apenas me pede lume por duas vezes, esquecendo-se da minha cara à primeira. Um elevador de barcos fá-los descer até chegarem à Polónia, do outro lado. Em Potsdam, descobri, de chinelos por cima dos sapatos, casas reais e salas de tronos. No comboio, tentei chamar Madalena ao longe, com o olhar, sem que ela me ouvisse. Vi lugares de vida, de morte e de ressurreição. De inocência e de culpa. Abri a porta ao sonho, a cada dia. Agora, fecho os olhos, e sinto cada vez mais que trocaria tudo por um segundo de ti. A dois passos daqui, reconstruo o Muro. Com as costas na terra, revejo a trovoada, e choro, sem uma única lágrima, a tua ausência.

Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Todo este céu...


Algum tempo depois, volto a este céu. Como se fosse o meu verdadeiro mar. Pudesse eu trocar todo este céu, todo este mar, pelo teu abraço, pelo teu colo. Abraça-me bem. Como num último adeus. Para que não mais me despeça de ti. Para que todo este céu seja para sempre o teu colo. Um abraço infinito. Como és bonita, vista daqui, reflectida no mar. Como és bonita em toda a parte em que te vejo. Como és bonita de cada vez que te volto a ver de olhos fechados, entre as minhas mãos. E alguém te chamou sereia. E como me encanta a tua voz. Abraça-me bem, nesta noite de lua reflectida sobre os meus olhos. Devolve-me o brilho no olhar com que vejo novas ilhas. Devolve-me o teu abraço que me fazia ter por companhia a estrela que guia os marinheiros. Devolve-me aquele aperto bom no peito que me faz sorrir sempre que me lembro de ti. Regresso a este céu à procura de tudo isto. Relembrando sempre, sempre, à medida que subo, cada vez que estive ao teu lado. Parto hoje... Pudesse eu trocar todo este céu, todo este mar, pelo teu abraço, pelo teu colo. Abraça-me bem…